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Fernando Ferraz - Entrevista

Fernando Ferraz é bailarino/ intérprete criador, arte educador, historiador e pesquisador. Mestre em Artes Cênicas e bacharel em História, desenvolve importante pesquisa sobre as danças afro no Brasil. O interesse espontâneo pela dança na adolescência se intensificou e formalizou-se a partir de 1998, quando participa sistematicamente de cursos, oficinas, workshops e de grupos de dança afro – a profissionalização como bailarino/intérprete criador se dá em 2003. A formação em dança é múltipla, mas o foco central sempre foi a dança de matrizes africanas. A partir de 2009, sintetiza suas experiências ao iniciar um projeto de pesquisa sobre a história das danças afro no Brasil, suas principais correntes coreográficas e de treinamento corporal. Tem destacada trajetória como educador.


Fernando Ferraz participou em agosto da Rede Terreiro Contemporâneo de Dança – 2ª Edição, realizado pela SeráQuê? Cultural, quando ministrou a oficina “Fazeres e Saberes das Danças Afro: Um Olhar Histórico e Dramatúrgico sobre as Pluralidades Negras na Dança Teatral”.  Fernando Ferraz respondeu a entrevista do Centro Cultural Virtual por email. Aqui, ele fala sobre sua formação, o início da trajetória, a descoberta da dança, o foco na dança afro, a carreira como bailarino/intérprete criador, pesquisador e arte educador, a distinção entre dança negra e dança afro, o cenário para elas em São Paulo e no Brasil, os projetos atuais, e muito mais.


É o que você confere aqui nesta entrevista exclusiva.



1 – O Senhor é mestre em Artes Cênicas e bacharel em História. Como se deu a sua formação em dança?

Desde minha adolescência sempre gostei muito de dançar, formava grupos no colégio, dançava na casa dos amigos e também participei de grupo de teatro amador muito importante para a minha formação como artista da cena, enfim..., mas minha formação especificamente em dança iniciou-se de maneira mais estrita e aplicada em 1998, no início de minha graduação em História na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Neste ano integrei o grupo de dança afro existente no Núcleo de Consciência Negra da Usp, sob a orientação da bailarina Kelliy dos Anjos. Participei intensamente das atividades deste grupo de 1998 a 2002. Em 2000, o envolvimento com a atividade mais disciplinada da dança foi tão intensa que, quando dei por mim, já estava dançando em outro grupo de dança afro (o Grupo Okun de cultura afro-brasileira, dirigido pelo bailarino Álvaro Santos), e sendo um aluno cativo das oficinas de dança que ocorriam no Centro Cultural Vergueiro de São Paulo. Nessas oficinas, realizadas entre os anos de 2000 e 2002, tive a oportunidade de ter como professores artistas como Célia Gouvêa e Claudia de Souza. Também foi graças a essas oficinas que fui convidado a participar de um grupo de dança contemporânea onde desenvolvi intensa atividade como intérprete criador por 3 anos. Neste grupo dirigido e formado por bailarinos de ampla formação, que iam do clássico à formação contemporânea do Laban Center -UK (dois dos integrantes vinham de uma formação nesta escola), pude me profissionalizar como bailarino e atuar em espetáculo fomentado pela cidade de São Paulo. Entre 2002 e 2003 também me aproximei como aluno especial e ouvinte do Departamento de Artes Corporais da Unicamp, onde pude acompanhar suas alunas em três semestres e aprender muito cursando disciplinas diversas relacionadas a áreas do conhecimento em dança como percepção e consciência corporal, composição e dramaturgia e danças brasileiras, esta última com a professora Doutora Inaicyra Falcão dos Santos. Interessante pensar que por mais que quisesse aprender outras técnicas de dança, somar ao meu corpo treinamentos diversos, nunca parei de estudar e praticar a dança afro em suas mais variadas vertentes. A partir de 2009 resolvi sintetizar minha experiência ao iniciar um projeto de pesquisa sobre a história das danças afro no Brasil, suas principais correntes coreográficas e de treinamento corporal. Quando vejo minha trajetória não consigo parar de pensar sobre uma certa generalidade da formação do artista da dança contemporâneo do sexo masculino, de como ela é muitas vezes informal, mas ao mesmo tempo, apesar de seu caráter fragmentário, vai ganhando densidade pelas escolhas e trajetos definidos. Ressalto também a importância de espaços públicos que promovem esse tipo de atividade de dança, tanto como formação quanto atualização das práticas e conhecimentos dos artistas da dança. Devo muito ao meu olhar de historiador, aos meus colegas do teatro físico, aos ensinamentos de muitos mestres que, mesmo sem a vivência necessária, pois muitas vezes o contato com eles era demasiadamente abreviado pelo tempo dos workshops e oficinas, foram me mostrando caminhos e possibilidades do processo criativo.


2 – O senhor começou a carreira profissional como bailarino em 2003. Como foi esse início de trajetória.

Fui convidado por uma das integrantes de um grupo de dança contemporânea a integrar o grupo como intérprete criador de um processo que se iniciava em 2001. A formação dos integrantes desse grupo era bem interessante, atores, bailarinos clássicos, gente da dança contemporânea e eu do afro. Por três anos ensaiamos e trabalhamos pelo menos 12 horas por semana, montamos um espetáculo (estreado no inicio de 2003, quando me profissionalizei) e chegamos a ensaiar um outro. Havia muita troca. Além das atividades do grupo eu fazia outras aulas e também comecei a dar aulas de afro. Acho que nunca dancei tanto na minha vida como neste período (2001 a 2004), tinha dias que chegava a praticar quase 8 horas por dia. Daí vieram as primeiras lesões... e a vontade de escutar mais meu próprio corpo, começar a trabalhar mais no meu próprio ritmo, reelaborar de modo próprio as experiências somadas, dar ênfase à meu trabalho de educador e de intérprete.


3 – Gostaríamos que o senhor destacasse alguns de seus trabalhos.

Como intérprete criador o solo Emi: o sopro da criação, estreado em 2010 no 22º. Festival de Dança do Triângulo Mineiro e reformulado e reapresentado no ABCDança de 2012 foi um trabalho muito significativo. Ele ainda ta crescendo.... encorpando. Foi a primeira tentativa bem sucedida de fazer um trabalho solo, já tinha montado outras coisas, mas nunca conseguido apresentar com uma infraestrutura mais formal de produção e reconhecimento do trabalho. Fora isso muitas performances, parcerias com amigos artistas e o trabalho que desenvolvo como educador. Pesquisando com meus alunos a história das danças afro, seus processos de composição coreográfica, seu treinamento corporal, seus elos com outras áreas das artes cênicas (a performance, o jogo teatral, a improvisação etc), este é inclusive um trabalho que me da imenso prazer o de rever os estereótipos dessa linguagem, valorizar suas múltiplas vertentes, reconhecer teórica e praticamente suas possibilidades.


4 – O senhor tem ampla trajetória na educação, inclusive na formação básica. Como o ensino da dança está inserido na escola?

Minha atividade como educador em dança sempre se deu fora do ambiente escolar formal, ou seja, em Ongs, Associações comunitárias e atualmente nas atividades de extensão e cursos nas Universidades. Nas instituições de ensino formais atuei muitos anos como professor de história e infelizmente raramente vi algum esforço no sentido da educação em dança. No geral sinto que as atividades são ainda orientadas numa visão de dança muito tributária de uma visão conservadora da técnica de dança clássica, e se formos falar da inclusão dos meninos nessas atividades então... temos muito o que caminhar ainda.


5 – Na trajetória de educador, o senhor é também professor de dança de diferentes linguagens. Gostaríamos que o senhor falasse a respeito.

Na realidade tento trazer para as danças afro a contribuição de outros treinamentos e técnicas. Tenho focado na reflexão sobre seus processos de treinamento, formas de composição coreográfica, seus fluxos no espaço, suas relações com outras dinâmicas do trabalho cênico e em especial com a dramaturgia do movimento. Essa última entendida como os processos geradores do movimento que podem ser alimentados quando em diálogo com um arsenal gestual e simbólico tão rico como nas danças afro, sem falar em sua estrutura corporal flexível e articulada e na sua sensibilidade rítmica apurada. Esses elementos compõem um material a partir do qual o movimento também pode ser reinventado, recriado e não apenas repetido em estruturas fechadas. Buscar qual a resposta que cada corpo pode dar a esses estímulos e como as histórias pessoais, podem somar sentido na descoberta de novos movimentos que dialoguem com esse universo corporal simbólico específico da diáspora negra no Brasil são, sem dúvida, os temas de trabalho que tem me motivado nos últimos anos, seja como intérprete-criador ou arte-educador.


6 – Especificamente sobre as danças de matrizes negras. Como ela está inserida na formação de alunos da educação básica e dos bailarinos?

Acho que apesar dos esforços em se fazer cumprir a legislação brasileira no que tange a presença dos estudos sobre a história e cultura afro-brasileiras no ensino formal, ainda são pouquíssimas as escolas que conseguem construir um projeto educacional coeso que incorpore a prática das danças afro no currículo. Mesmo que essa dança possua um universo tão rico e possibilite trabalhar temas tão diversos para além das artes corporais há ainda muito preconceito. Este é um trabalho de militância, de formação de base dentro e fora das escolas que todos nós como educadores temos que construir, seja na educação básica ou na formação dos professores. Em relação à formação dos bailarinos penso que já existem polos onde este estilo começa a ganhar força. Se a atuação de arte educadores nas periferias começa a ter um papel valioso na formação de novos quadros de artistas e bailarinos desta linguagem, penso que ainda falta muito espaço a ser conquistado. Se essa dança tem um papel contundente na valorização política de uma negritude brasileira e produção de auto estima entre jovens negros moradores da periferia acredito que devemos tomar cuidado ainda na produção de sensos comuns que relacionam este estilo a um local muito fechado de produção cultural. Devemos combater a continuidades de discursos de vitimização, a reprodução de modelos de uma expressividade exótica a ser mantida em espaços circunscritos. Se ela tem uma identidade política forte, essa mesma referência tem que ser elaborada dentro do espaço da pluralidade, tem que alcançar múltiplos campos de atuação, estar na universidade, nos estúdios de dança, estabelecer diálogo com o que há de mais moderno na prática da dança contemporânea, tem que sair do gueto e do discurso dos que a monopolizam ou restringem.

 

7 – Como o senhor vê o panorama da dança negra em São Paulo?

É muito difícil apontar nomes relevantes, essas escolhas sempre deixam de lado muitos outros profissionais tão importantes quanto os que são lembrados. De uma forma geral acredito que embora existam poucos registros e reflexão sobre a história deste estilo de dança na cidade ela já conseguiu ocupar um espaço legítimo, fruto da atuação honesta e criadora de muita gente importante no cenário das danças afro. Aliás, cabe aqui uma distinção sobre os nomes afro e negra na dança. Penso ser o termo dança negra mais genérico. Ele envolve todos os profissionais de dança que, independente do estilo de dança de sua formação ou método de trabalho incorporam como motivo principal de sua criação a experiência da negritude. Já as danças afro estão conectadas a uma tradição e linhagem coreográfica historicamente determinada no Brasil, segue os passos de nomes como Mercedes Batista, Domingos Campos, Raimundo Bispo dos Santos, só pra citar alguns nomes, e está atrelada com uma releitura para os palcos e salas de aula dos códigos corporais, simbólicos e gestuais existentes nas comunidades religiosas afro-brasileiras, embora também se aproprie de manifestações da cultura popular afrodescendente de maneira geral, o que faz do uso da expressão danças afro no plural uma coisa a se pensar. Em São Paulo, nomes como Firmino Pitanga, grupos como Ilu Obá De Min (antigo Oriaxé) e inúmeros outros coreógrafos que passaram por aqui, outros grupos que já se desfizeram puderam ser a escola de muitos artistas atuantes na cidade. Penso também que esta produção tem certa diversificação, se muitos grupos seguem uma linguagem conectada com as danças afro, outros tem se identificado com releituras das danças africanas em nossa contemporaneidade, revendo inclusive conceitos sobre a corporalidade da diáspora negra. Esses criadores têm revisto as ideias de um continente mãe quase perdido no passado, como se a África não estivesse inserida em contextos globalizados cheios de conflito e diversidade. Nesses esforços nomes como Irineu Nogueira sacudiram o cenário da dança afro paulistana, mesclando às danças afro os ritmos e danças da África do Oeste e continuam servindo de inspiração pra muitos outros voos. Sinto que existem muitos profissionais buscando seu espaço, criando novos olhares, atuando como pesquisadores e educadores, falta ainda estimular e sedimentar fóruns onde a troca dessas novas experiências possam se alimentar e fortalecer politicamente no cenário da produção em dança de um modo mais geral. 


8 – E no país?

É difícil falar assim no geral, minha pesquisa tem se alimentado do cenário das danças afro muito específico. Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo foram e ainda são minhas áreas de interesse. Nesses locais percebo a constituição de linhagens coreográficas constituídas pelo trabalho de décadas. Percebo também muitos sotaques, trânsitos, interferências. Essa dança se liga com a história dos grupos folclóricos, com o carnaval e as escolas de samba, com os blocos e afoxés, com as comunidades de jongo, com os terreiros de candomblé, com a dança moderna norte americana, com a produção artística feita nas universidades, com a atuação de arte educadores nas periferias, com a dança contemporânea, com a pesquisa de intérprete criadores autônomos, é um cenário muito diverso, com muita gente competente cuja formação em dança, os engajamentos sociais e políticos e as trajetórias profissionais também são múltiplas. A análise dos percursos desses personagens deve ser tomada caso a caso. Outra questão importante é que a produção dessa dança negra assume acentos específicos em outros estados, dialogando com expressões regionais características, daí a nomenclatura que se usa para nomear essa dança também varie. Nesse sentido acho interessante perguntarmos quais são os aspectos que influenciam no reconhecimento de uma identidade afrodescendente ou negra na dança. Se essa dança esta imersa em redes de interferência, quais serão suas dimensões de resistência, seus estereótipos, hibridizações, como é referida e mencionada quando seus traços mais aparentes não são valorizados, aparecem ocultados, ou são expropriados de outros contextos menos evidentes e explícitos. No fundo creio que há uma dimensão política importante em seu reconhecimento.


10 – Quais são os principais desafios que o senhor vê hoje na relação entre educação e cultura?

Não gosto de pensar muito com categorias gerais. Prefiro pensar numa práxis mais cotidiana. Como ela pode afetar dimensões mais gerais, não tenho respostas. Acho que os profissionais que atuam com a intermediação entre arte e ensino tem que fazer um esforço redobrado para fundir em suas práticas dimensões da pesquisa, da criação e da transmissão de saberes. Esta conexão por si só já é um ato político relevante, principalmente quando esta prática não se abstém de ressaltar suas implicações políticas, apontar preconceitos sem se vitimizar e transgredir espaços circunscritos já é um bom começo.


11 – Quais são seus projetos atuais?

Pretendo continuar a pesquisa sobre a história das danças afro no Brasil. Há muitas coisas ainda há serem cotejadas, ainda mais porque esse entendimento não é só teórico, minha prática como intérprete-criador e arte educador também se influenciam por esta pesquisa. Também dirijo um grupo que tem se firmado nas atividades de extensão do Instituto de Artes da Unesp de São Paulo, além de discutirmos e praticarmos sobre a corporalidade contemporânea que toma como material fundamental a pluralidade da dança negra estamos preparando uma performance para o final do ano, vamos ver o que surgirá disso...





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