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Solange Borelli - Entrevista

Solange Borelli é gestora e produtora cultural. Graduada em educação física com especialização em dança-educação, é mestre em artes corporais pela Unicamp. O início da carreira artística foi no teatro, o que a levou a buscar trabalhos de corpo e movimento, que, por fim, desaguou na dança. Sua formação na nova área passou por Toshie Kobayashie (balé clássico) e Victor Aukstin (dança moderna), seguido de estudos com Klauss Vianna, Jane Blauth, e diversos outros artistas da cena paulistana nos anos 1980 e 90. Em 1996, começa trajetória em gestão cultural e produção, tanto de projetos como de companhias e espetáculos. Funda a Radar Cultural, importante produtora em São Paulo, responsável por trabalhos com companhias e artistas de dança nacionais e internacionais, e de projetos como o atual Interlocuções Poéticas, apresentado na Funarte SP, com convidados de vários estados brasileiros.

 

Solange Borelli esteve em Belo Horizonte para participar do Seminário Vivo EnCena – Economia e Políticas da Dança, realizado pela SeráQuê? Cultural, através do Centro Cultural Virtual. Já de volta em São Paulo, ela respondeu essa entrevista por email, em que fala sobre sua formação, a descoberta da dança, da gestão cultural e da produção. Fala da Radar Cultural e seus projetos, de como vê a cena da dança em São Paulo e no Brasil, as discussões políticas que regem o setor, a relação entre educação e cultura, e muito mais.

 

É o que você confere aqui nesta entrevista exclusiva!

 

Em tempo: Solange Borelli está de volta a Belo Horizonte para acompanhar, neste final de semana, a apresentação de dois espetáculos que produz, “Sapatos Brancos”, de Luis Ferron, e “Através”, do Núcleo de Dança Coletivo 22, na Funarte MG.

 

1 – Qual a sua formação?

 

formação acadêmica: educação física com especialização em dança-educação, mestrado em artes corporais (unicamp).

 

2 – Como se deu seu interesse pela dança?

 

por meio do teatro. meu primeiro trabalho profissional foi aos 16 anos no teatro infantil. um musical. daí a necessidade de se ter uma trabalho de corpo e de movimento para dar conta das exigências daquele diretor. fiquei ainda mais 4 anos no teatro e acabei migrando de vez para a dança, porque enquanto pesquisa dramatúrgica me pareceu mais instigante. voltei em alguns momentos para o teatro, mas aí para dar assistência de direção, ou direção de movimento. minha formação em dança passou por toshie kobayashie (balé clássico) e victor aukstin (dança moderna), seguido de estudos com klauss vianna, jane blauth e diversos outros artistas da cena paulistana nos anos 80 e 90.

 

3 – Quando e como começou sua trajetória como produtora e gestora cultural em São Paulo?

 

em 1996, ao me deparar com um convite da secretaria de cultura do munciípio de santo andré, para desenvolver um projeto de dança com a duração de 5 meses, é que me dei conta da complexidade de se fazer uma produção, de dialogar com gestores culturais nas mais diversas instâncias, de precisar olhar para um determinado assunto nas mais diversas perspectivas possíveis. me dei conta também que gostava de fazer isso. em 2000, fui convidada para atuar na gestão pública como coordenadora de dança numa cidade da grande são paulo (ribeirão pires), o que aumentou a minha percepção sobre esta área: gestão cultural. no paralelo produzia companhias de dança e de teatro eventualmente. em 2004, assumi de fato a direção de produção de uma companhia de dança profissional e pude sim entender melhor o significado, a importância e a necessidade de se fazer produção cultural e produção artística, entendendo inclusive as suas diferenças.

 

4 – Como a senhora vê a cena da dança em São Paulo?

 

é uma das mais interessantes no que se diz respeito á pesquisa de lingaugem, à produção de conhecimento, à produção artística, à oferta e demanda de trabalho. em relação também à mobilização política de uma categoria que tem uma tendência muito forte ao isolamento. atualmente, a cidade de são paulo, tem aproximadamente 60 (sessenta) companhais de dança profissionais das mais variadas tendências estéticas. é muito difícil vc conseguir assistir tudo o que está em cartaz hoje em são paulo. no entanto ainda temos um problema bem sério que é a escassez de público para toda esta produção. e percebeo que poucos artistas tem esta preocupação: de formação de público para a dança contemporânea. então, o que vemos muito, são platéias com uma lotação muito aquém das nossas necessidades e desejos.

 

5 – E a cena da dança no país?

 

percebo que nos demais estados a dança também tem se organziado, se articulado, novos coeltivos tem se formado com propostas muito consistentes. no entanto, com menos possibilidades de se colocarem na cena de suas cidades ou estados, pois há bem poucos programas de políticas públicas nestas regiões que dêem conta das necessidades desta linguagem. eventualmente um edital ou outro é lançado. mas gosto de ver como algumas regiões do país se organizam em torno de festivais, sobretudo os internacionais. e neste caso, penso que os festivais são ótimos momentos de agregar os profissionais da dança não apenas em relação às propostas artísitcas ali apresentadas, mas também em relação à consolidação de um grande coletivo integrado que pensa junto as questões cruciais da dança: formação, a criação, a difusão e a circulação, entre tantas outras questões.

 

 

6 – A senhora participa das discussões políticas que regem a dança em São Paulo. Como esse segmento está representado hoje na esfera estadual?

 

a dança tem uma ótima representativa na esfera municipal, porque encontra eco nas discussões que fomenta. temos como exemplo a lei de fomento à dança que contempla por ano 30 (trinta) projetos/companhias de dança que por um período de 12 meses é subvencionado para pesquisar, produzir e circular novas obras coreográficas, algo que, além de possibilitar a manutenção dessas companhias, também tem alterado signifcativamente o desenho coreográfico cultural desta metrópole.

 

na esfera estadual acontece exatemente o oposto. as políticas públicas relacionadas à dança ali implantadas pouco ou nada levam em conta o que a categoria tem discutido enquanto necessidades. não há quase diálogo. o pouco que conseguimos estabelecer não são levados em consideração. prevalece ainda a política de balcão. o toma lá da cá revestido de editais medíocres e pouco eficientes. gasta-se milhões com uma companhia de dança (companhia de dança são paulo), uma companhia que tem pouca representatividade na cena paulista e, consequentemente na sociedade como um todo. uma companhia totalmente desconectada do seu tempo e espaço. e o que me parece puor, utilizando-se de verba pública onde a população pouco ou nada pode interferir, sugerir, alterar. em síntese: padecemos com uma gestão pública dentro de um pensamento político arcaico que perdura há mais de vinte anos no estado de são paulo.

 

7 – A senhora fundou a Radar Cultural Gestão e Projetos. Quais foram os projetos de destaques em dança que vocês desenvolveram?

 

a ‘radar cultural’ veio da necessidade de se estruturar melhor o que eu já vinha fazendo profissionalmente. ao criar uma empresa, cria-se outras responsabilidades organizacionais. cria-se equipes de trabalho. cria-se demandas e necessidades de demandas. quando, num momento anterior eu produzia apenas uma companhia de dança com exclusividade, com a criação da ‘radar cultural’ passei a me relacionar com mais companhias e, consequentemente com outros universos de pensamento desse ‘fazer dança’. a radar cultural já produziu: núcleo luis ferron, núcleo marcos moraes, cia. druw, le plat do jour, ballet nacional de cuba, cia danças claudia de souza, cínica cia. de teatro, núcleo de pesquisa em linguagens híbridas de fábio mazzoni, cia. sansacroma, zé da velha e silvério pontes, fórum vivo em cena dança e sustentabilidade, circuito vozes do corpo, e o mais recebete projeto ‘interlocuções poéticas’ - projeto de ocupação  da sala renée gumiel/ funarte sp, entre outros.

 

8 – Atualmente a senhora coordena o projeto Interlocuções Poéticas, que apresenta em São Paulo companhia de dança de vários estados. Como se dá essa interlocução com os coletivos de dança no país?

 

à medida que você possibilita breves temporadas de companhias de dança das mais variadas estéticas dentro de um espaço que necessita ser revisitado, revitalizado e ocupado, como é a funarte são paulo, a interlocução ali já se instaura naturalmente. primeiro porque a dança, como todas as artes, sobretudo a arte contemporânea é híbrida, ou seja, se conecta à outras linguagens inevitavelmente. no ‘interlocuções poéticas’ contemplamos a participação numa mesma semana de duas ou três cias. de dança se apresentando, o que os obriga à dialogar de alguma forma. o público também se beneficia desta contaminação. tivemos o desejo também de convidar companhias de outros estados, tais como: rio de janeiro, minas gerais, rio grande do sul, espírito santo, goias e ceará – para compor uma programação bem audaciosa mas sobretudo, honesta no sentido de uma utilização da verba pública na sua inteireza. ao final do projeto terão passdo pela funarte aproximadamente quarenta companhias de dança profissionais de vários estados do país, além de oficinas, fóruns, intervenções, residências artísticas, espaços de convivências, saraus, jam de improvisação, mostra de vídeo, etc.

 

9 - Quais são os principais desafios que  senhora vê hoje na relação entre educação e cultura?

 

a falta de coerência nas propostas e nas ações desencadeadas por estas pastas seja na esfera municipal, estadual ou federal. não existe de forma efetiva a matricialidade. algumas investidas tímidas para problemas conjunturais que já deveriam ter sido resolvidos há tempos. a máquina do tempo da gestão pública está enferrujada e doente. a sociedade se ausentou desta responsabilidade e pouco se manifesta. a cultura apenas terá a relevância na sociedade quando a educação estiver atrelada às dinâmicas culturais já estabelecidas. não é mais admissível uma escola da rede pública, sobretudo as escolas de formação inicial, estar desconectada dos fazeres e saberes culturais principalmente dentro do contexto onde esta escola está inserida.

 

10 – Quais são seus projetos atuais?

 

enveredar pela área internacional, sobretudo na américa latina, onde já tenho tido investidas bem significativas. estamos em vias de fechar um projeto de circuito que envolverá vários países deste continente e assim estabelecer uma interlocução poética latino-americana. trata-se de umprojeto complexo, mas apaixonante como tudo o que tenho feito  nesta área. 





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