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Yoshi Suzuki - Entrevista

Yoshi Suzuki é bailarino da São Paulo Cia de Dança. Nascido em Ribeirão Preto (SP), o interesse pela dança se deu na infância durante o período escolar: aos 10 anos começou no sapateado, aos 13 no jazz. Foi aos 14 anos, quando participa de um concurso e faz oficina com Henrique Carvalho, que o talento para a dança se torna mais claro, e Carvalho orienta ao aluno que faça um curso de balé. A família é resistente à ideia, mas é na mãe que encontra apoio e se matricula em um estúdio de dança. Aos 17 se profissionaliza na Cia de Dança São José dos Campos. Já em 2008 muda-se para o Rio de Janeiro para estudar no Conservatório Brasileiro de Dança. Depois, faz audição para o primeiro Corpo de Baile de uma nova companhia que surgia: São Paulo Cia de Dança. Yoshi Suzuki entra para a companhia, onde permanece até hoje, e na qual atuou em espetáculos de grande repercussão dentro e fora do país.


O Brasil possui um elenco talentoso de bailarinos experientes, que integram companhias de dança em várias partes do país. O Centro Cultural Virtual abre espaço para que esses artistas possam contar suas trajetórias e como veem a dança. Ao longo do ano serão publicadas várias entrevistas com bailarinos e bailarinas de diferentes regiões. Quem abre essa série é Yosh Suzuki, da São Paulo Cia de Dança, que fala sobre sua formação, revê sua trajetória, diz o que pensa sobre a dança, seus objetivos, e muito mais.


É o que você confere aqui nesta entrevista exclusiva.


 


 Quando aconteceu, pela primeira vez, seu interesse pela dança? 

No Colégio em que estudava existiam diversas atividades extracurriculares que poderiam ser optadas pelos alunos. Desde pequeno frequentava as aulas de judô e natação, porém a dança sempre me chamou a atenção.

 

Com 10 anos pedi para minha mãe me colocar no sapateado, ela relutou um pouco no início, mas acabou cedendo. Fui me encantando cada vez mais e aos 13 anos entrei para o grupo de Jazz da escola; aos 14 anos participei de um concurso aonde existiam oficinas, me inscrevi na de Jazz do Henrique Carvalho. No final do curso ele se direcionou a minha mãe e disse que eu tinha talento porem precisava fazer aulas de ballet. Minha mãe  ficou pensativa sobre o assunto, não gostava da ideia e muito menos meus avós. Depois de muito conversarem comecei a frequentar aulas de ballet em um estúdio de dança perto de casa.

 

 Fale um pouco sobre sua trajetória. 

Meu primeiro contato com a dança foi na escola de ensino fundamental aonde estudava Colégio Larcordaire Sant Anna, em Ribeirão Preto, cidade em que nasci. Perdi meu pai muito cedo em um acidente de carro, então minha criação e de minha irmã ficou toda em cima de minha mãe. Ela, sempre muito protetora, se preocupava com o que seria de nosso futuro, não idealizava um bailarino na família e ainda contava com a desaprovação de meus avos que são japoneses muito tradicionais. Porém, ela sempre me apoiou em todos os momentos e nunca deixou de acreditar em mim.

 

Aos 15 anos tive meu primeiro contato com o ballet clássico no Studium Carla Petroni, escola técnica em dança que estudei até meus 17 anos. Meu principal professor, responsável pela minha formação em ballet, foi Ricardo Camargo pessoa que admiro muito!

 

Nessa época já tinha em mente que o que mais queria da minha vida era dançar, porém não foi fácil convencer a família. A responsabilidade da minha decisão acabou ficando em cima da minha mãe, que sempre respondeu por mim diante da família e me apoiou nesse momento. Eu diria que ela sofreu muito (risos)!

 

Sempre fui muito determinado e, aos 17 anos, fiz audição para a Cia. de Dança de São José dos Campos, que na época era dirigida por Ricardo Scheir, um grande mestre a quem devo muito. Esse foi o início de minha carreira profissional, e de grande crescimento pessoal: abandonei o colo de minha mãe em busca desse sonho.

 

Na época meu maior objetivo era estudar fora do país, participei de diversos concursos de dança na luta por uma bolsa de estudos no exterior, porém todas as minhas tentativas foram frustradas pela minha baixa estatura:, 1,62 não era nem perto da medida "ideal" de um bailarino.

 

Fiquei arrasado e pensei em abandonar a carreira. Queria desistir desse sonho que para mim tinha se tornado utópico. Então, mais uma vez, minha mãe me apoiou e me incentivou a continuar. Tive uma conversa muito significativa também com Ricardo Scheir, meu professor nesse período, e percebi que para contornar essa minha "desvantagem" (que não é desvantagem alguma, porém só fui perceber isso posteriormente) teria que me esforçar mais, para que nunca mais precisasse ouvir sobre minha baixa estatura.

 

Em 2008 me mudei para o Rio de Janeiro porque decidi estudar no Conservatório Brasileiro de Dança, dirigido por Jorge Teixeira, e cercado de bailarinos muito talentosos e divertidos. Foi um período muito feliz de minha vida, esse mesmo ano decidi fazer a audição para o primeiro corpo de baile de uma nova companhia de dança que estava surgindo - a São Paulo Companhia de Dança - então iniciei uma nova fase de minha vida profissional.

 

 Que experiência foi a mais transformadora em sua trajetória? 

No meu primeiro mês de trabalho na São Paulo Companhia de Dança fui apresentado a vários estilos e técnicas de Dança: Cunningham, Martha Graham, um pouco de Forsythe - técnicas maravilhosas que não conhecia e que poderiam ampliar muito a minha atuação enquanto artista. Porém, de início, não foi nada fácil.

 

Durante a minha formação, participei muito de concursos. Sempre gostei do intercâmbio que os concursos proporcionam: muitas pessoas diferentes, de vários lugares, com danças diferentes. Esses concursos proporcionam muitas oportunidades e incentivam vários jovens para a carreira de bailarino. Porém essa é apenas uma fase, uma importante fase na vida profissional de um bailarino. Mas percebi que para seguir me desenvolvendo precisaria trabalhar profissionalmente, e com a mente muito aberta para enfrentar os paradoxos que os bailarinos profissionais enfrentam no dia a dia do trabalho em companhias profissionais. É como se você tivesse que esquecer tudo que aprendeu durante seus anos de estudo para poder dançar. Porque se isso não acontecer a sua técnica acaba sobrepondo a sua dança e você deixa de ser um artista. E essa foi a maior lição que aprendi na São Paulo Companhia de Dança, graças a Iracity Cardoso (ex-diretora artística) e Inês Bogéa (atual diretora artística) que me mostraram o quão grande eu posso ser se estiver aberto a aprender novas formas de me mover.

 

 Quais são os objetivos profissionais em médio prazo, e como pretende atingi-los? 

Atualmente é dançar o máximo que puder. Quero absorver cada nova ideia que me for apresentada, e futuramente poder passar as coisas que aprendo durante a minha vida para outros bailarinos. Como diz uma mestra que muito admiro, Tatiana Leskova, "a perfeição não existe!", porém estamos sempre a procura dela!

 

Tenho alguns projetos como desenhista também. O desenho sempre foi uma de minhas paixões, e pretendo alia-lo de alguma forma com a minha dança. E uma das coisas que a São Paulo Companhia de Dança me proporciona é o contato com vários artistas, de diversas áreas, lá reunidos em prol da dança.

 

 O que sonha para o profissional de dança no Brasil?

Cada vez mais e mais mercado, e mais pessoas falando sobre essa arte maravilhosa! Gostaria de ver discussões, reuniões, apresentações, sobre esse assunto! A dança no Brasil tem muito ainda a crescer, mas aos poucos chegaremos lá. Graças aos esforços de muitos artistas, que acreditam e amam essa arte, a dança vem ganhando mercado no Brasil. Meu desejo é que, um dia, essa profissão seja tão respeitada e valorizada como qualquer outra!

 

 Como vc define a arte da dança? 

A dança, como as artes em geral, é como um espelho da humanidade. As artes sempre estiveram presentes e contam cada momento da história do homem! A Dança é arte expressa pelo corpo. É material para estudo histórico; é celebração; pode ser um ritual, uma brincadeira, um meio de comunicação. É, sem dúvida, uma das maiores maravilhas que o homem criou ou descobriu. Sou e serei um eterno amante dessa arte que escolhi como estilo de vida.

 

 Em sua opinião, qual a importância da arte da dança para a humanidade?

A dança é uma das principais artes da cena. Sempre acompanhou a história da humanidade e participou de todos os movimentos e tendências artísticas. Mesmo nos tempos em que foi proibida pela igreja, continuou existindo clandestinamente, até mesmo como uma forma de expressão contra essa repressão. Expressa através de movimento, ou da ausência dele, os desejos humanos.

 

 





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